segunda-feira, 23 de abril de 2012

Sobre o Facebook


Narcisismo no "Face" 

por Luiz Felipe Pondé

Cuidado! Quem tem muitos amigos no "Face" pode ter uma personalidade narcísica. Personalidade narcísica não é alguém que se ama muito, é alguém muito carente.
Faço parte do que o jornal britânico "The Guardian" chama de "social media sceptics" (céticos em relação às mídias sociais) em um artigo dedicado a pesquisas sobre o lado "sombrio" do Facebook (22/3/2012).

Ser um "social media sceptic" significa não crer nas maravilhas das mídias sociais. Elas não mudam o mundo. Aliás, nem acredito na "história", sou daqueles que suspeitam que a humanidade anda em círculos, somando avanços técnicos que respondem aos pavores míticos atávicos: morte, sofrimento, solidão, insegurança, fome, sexo. Fazemos o que podemos diante da opacidade do mundo e do tempo.

As mídias sociais potencializam o que no humano é repetitivo, banal e angustiante: nossa solidão e falta de afeto. Boas qualidades são raras e normalmente são tão tímidas quanto a exposição pública.
E, como dizia o poeta russo Joseph Brodsky (1940-96), falsos sentimentos são comuns nos seres humanos, e quando se tem um número grande deles juntos, a possibilidade de falsos sentimentos aflorarem cresce exponencialmente.

Em 1979, o historiador americano Christopher Lasch (1932-94) publicava seu best-seller acadêmico "A Cultura do Narcisismo", um livro essencial para pensarmos o comportamento no final de século 20. Ali, o autor identificava o traço narcísico de nossa era: carência, adolescência tardia, incapacidade de assumir a paternidade ou maternidade, pavor do envelhecimento, enfim, uma alma ridiculamente infantil num corpo de adulto.
Não estou aqui a menosprezar os medos humanos. Pelo contrário, o medo é meu irmão gêmeo. Estou a dizer que a cultura do narcisismo se fez hegemônica gerando personalidades que buscam o tempo todo ser amadas, reconhecidas, e que, portanto, são incapazes de ver o "outro", apenas exigindo do mundo um amor incondicional.

Segundo a pesquisa da Universidade de Western Illinois (EUA), discutida pelo periódico britânico, "um senso de merecimento de respeito, desejo de manipulação e de tirar vantagens dos outros" marca esses bebês grandes do mundo contemporâneo, que assumem que seus vômitos são significativos o bastante para serem postados no "Face".

A pesquisa envolveu 294 estudantes da universidade em questão, entre 18 e 65 anos, e seus hábitos no "Face". Além do senso de merecimento e desejo de manipulação mencionados acima, são traços "tóxicos" (como diz o artigo) da personalidade narcísica com muitos amigos no "Face" a obsessão com a autoimagem, amizades superficiais, respostas especialmente agressivas a supostas críticas feitas a ela, vidas guiadas por concepções altamente subjetivas de mundo, vaidade doentia, senso de superioridade moral e tendências exibicionistas grandiosas.

Pessoas com tais traços são mais dadas a buscar reconhecimento social do que a reconhecer os outros.

Segundo o periódico britânico, a assistente social Carol Craig, chefe do Centro para Confiança e Bem-estar (meu Deus, que nome horroroso...), disse que os jovens britânicos estão cada vez mais narcisistas e reconhece que há uma tendência da educação infantil hoje em dia, importada dos EUA para o Reino Unido (no Brasil, estamos na mesma...), a educar as crianças cada vez mais para a autoestima.

Cada vez mais plugados e cada vez mais solitários. Na sociedade contemporânea, a solidão é como uma epidemia fora de controle.

O Facebook é a plataforma ideal para autopromoção delirante e inflação do ego via aceitação de um número gigantesco de "amigos" irreais. O dr. Viv Vignoles, catedrático da Universidade de Sussex, no Reino Unido, afirma que, nos EUA, o narcisismo já era marca da juventude desde os anos 80, muito antes do "Face".
Portanto, a "culpa" não é dele. Ele é apenas uma ferramenta do narcisismo generalizado. Suspeito muito mais dos educadores que resolveram que a autoestima é a principal "matéria" da escola.

A educação não deve ser feita para aumentar nossa autoestima, mas para nos ajudar a enfrentar nossa atormentada humanidade.(Transcrito da Folha de São Paulo, 16 de abril)


quarta-feira, 21 de março de 2012

Coreia do Norte - Fuga do campo 14






Um texto esclarecedor publicado no último domingo pelo jornal “Folha de s. Paulo” sobre campos de prisioneiros na Coréia do Norte. (WG)

Shin, o norte-coreano
que conseguiu se salvar
 

Resumo A série de trechos de livros que a "Ilustríssima" publica em primeira mão apresenta parte da introdução de "Fuga do Campo 14", que sai em abril pela Intrínseca. No texto, o jornalista americano Blaine Harden conta a história de Shin, o único norte-coreano nascido em campo de prisioneiros que conseguiu escapar. 

BLAINE HARDEN
TRADUÇÃO MARIA LUIZA X. DE A. BORGES
 
Nove anos depois do enforcamento de sua mãe, Shin In Geun contorceu-se para atravessar uma cerca elétrica e saiu correndo pela neve. Era o dia 2 de janeiro de 2005. Até então, nenhuma pessoa nascida em um campo de prisioneiros políticos na Coreia do Norte havia conseguido fugir. Até onde é possível averiguar, ele ainda é o único que teve êxito.

Tinha 23 anos de idade e não conhecia ninguém do lado de fora da cerca. Depois de um mês, ele entrou na China, a pé. Em 2007, dois anos após a fuga, estava vivendo na Coreia do Sul. Quatro anos mais tarde, morava no sul da Califórnia e era um embaixador sênior da Liberdade na Coreia do Norte (LiNK), um grupo americano de defesa dos direitos humanos.
Na Califórnia, ele ia trabalhar de bicicleta, torcia para o time de beisebol Cleveland Indians (por causa do batedor sul-coreano, Shin-soo Choo) e comia duas ou três vezes por semana no In-N-Out Burger, que, a seu ver, tinha o melhor hambúrguer do mundo.

Seu nome agora é Shin Dong-hyuk. Ele fez a alteração depois de chegar à Coreia do Sul, numa tentativa de se reinventar como um homem livre. É bonito, com olhos vivos, desconfiados. Um dentista de Los Angeles tratou de seus dentes, que não podiam ser escovados no cativeiro.

Sua saúde física geral é excelente. O corpo, porém, é um verdadeiro mapa dos sofrimentos que decorrem de se crescer num campo de trabalhos forçados cuja existência o governo da Coreia do Norte insiste em negar.
Tolhido pela desnutrição, ele é baixo e franzino -1,67 m e 54,5 kg. O trabalho infantil deixou-lhe com braços arqueados. A parte inferior das costas e as nádegas têm cicatrizes das queimaduras infligidas pelo fogo do torturador. A pele sobre o púbis exibe a cicatriz da perfuração feita pelo gancho usado para prendê-lo sobre as chamas. Os tornozelos têm marcas de correntes que serviram para pendurá-lo de cabeça para baixo na solitária.
O dedo médio da mão direita foi cortado na altura da primeira articulação, punição que recebeu de um guarda por derrubar uma máquina de costura numa fábrica de roupas do campo. As canelas, do tornozelo até o joelho, em ambas as pernas, são mutiladas e marcadas por cicatrizes de queimaduras provocadas pela cerca de arame farpado eletrificada que não foi capaz de mantê-lo no interior do Campo 14. 

Coréia do Norte – Antípodas  Shin tem mais ou menos a mesma idade que Kim Jong-un, o gorducho terceiro filho de Kim Jong-il, que assumiu o comando depois da morte de seu pai, em 2011. Como contemporâneos, os dois personificam os antípodas de privilégio e privação na Coreia do Norte, uma sociedade pretensamente sem classes onde, na realidade, a criação e a linhagem determinam tudo
.
Kim Jong-un nasceu como um príncipe comunista e foi criado atrás das paredes de palácios. Foi educado sob um nome falso na Suíça e, de volta à Coreia do Norte, estudou numa universidade de elite que tem o nome de seu avô. Graças a sua estirpe, vive acima da lei. Para ele, tudo é possível.
Em 2010, foi nomeado general de quatro estrelas do Exército do Povo Coreano, apesar da completa falta de experiência de campo nas Forças Armadas. Um ano depois, após a morte de seu pai, vitimado por um súbito ataque cardíaco, os meios de comunicação da Coreia do Norte o descreviam como "outro líder vindo do céu". Porém, ele talvez seja obrigado a compartilhar sua ditadura terrena com parentes e autoridades militares.
Shin nasceu como escravo e foi criado atrás de uma cerca de arame farpado de alta voltagem. Numa escola do campo de trabalhos forçados, aprendeu a ler e a contar num nível rudimentar. Por ter o sangue maculado pelos supostos crimes dos irmãos de seu pai, não tinha nenhum dos direitos assegurados pela lei. Para ele, nada era possível.

O plano de carreira que o Estado lhe prescrevia era trabalho árduo e uma morte prematura causada por alguma doença acarretada pela fome crônica -tudo isso sem uma acusação, um julgamento ou um recurso.
E tudo em sigilo.

Coréia do Norte 2 - Arco




Nas histórias de sobreviventes a campos de concentração, há um arco narrativo recorrente. Forças de segurança roubam o protagonista de uma família amorosa e de um lar confortável. Para sobreviver, ele abandona princípios morais, reprime sentimentos por outras pessoas e deixa de ser um ser humano civilizado.

Em "A Noite", talvez a mais célebre dessas histórias, escrita por Elie Wiesel, ganhador do Prêmio Nobel, o narrador de 13 anos explica seu tormento com uma descrição da vida normal que ele e a família levavam antes de serem socados em trens destinados aos campos da morte nazistas. 

Wiesel estudava o Talmude diariamente. Seu pai era dono de uma loja e zelava pela aldeia em que moravam na Romênia. O avô estava sempre presente para celebrar os feriados judaicos. Mas, depois que toda a família pereceu nos campos, Wiesel foi deixado "só, terrivelmente só, num mundo sem Deus, sem homem. Sem amor ou misericórdia".

A história de sobrevivência de Shin é diferente.

A mãe o surrava, e ele a via como alguém que competia com ele pela comida. O pai, que só tinha permissão para dormir com a mulher cinco noites por ano, o ignorava. O irmão era um desconhecido. Truculentas, as crianças do campo não mereciam confiança.

Antes de aprender qualquer outra coisa, ele aprendeu a sobreviver delatando todas elas. Amor, misericórdia e família eram palavras sem significado. Deus não desapareceu ou morreu. Shin nunca ouvira falar dele.
No prefácio de "A Noite", Wiesel escreveu que o conhecimento de um adolescente sobre a morte e o mal "deveria ser limitado ao que se descobre na literatura".

No Campo 14, Shin não sabia da existência da literatura. Lá, viu apenas um livro -uma gramática coreana, nas mãos de um professor que usava uniforme de guarda, carregava um revólver no quadril e que surrou até a morte uma colega da escola primária de Shin com uma vara usada para apontar o que escrevia no quadro-negro.
Ao contrário dos sobreviventes a um campo de concentração, Shin não foi arrancado de uma existência civilizada e obrigado a descer ao inferno. Ele nasceu e cresceu lá dentro. Aceitava seus valores. Chamava-o de lar.

Coréia do Norte 3 - Satélites



Os campos de trabalhos forçados da Coreia do Norte já duram duas vezes mais tempo que o Gulag soviético e cerca de 12 vezes mais que os campos de concentração nazistas. Não há controvérsia sobre sua localização. Fotografias de alta resolução, feitas por satélites, acessíveis no Google Earth para qualquer pessoa que tenha uma conexão à internet, mostram vastas áreas cercadas que se esparramam entre as montanhas escarpadas da Coreia do Norte.

O governo da Coreia do Sul estima que eles abrigam cerca de 154 mil prisioneiros, enquanto o Departamento de Estado dos EUA e vários grupos de defesa dos direitos humanos calculam que sejam nada menos que 200 mil.
Após examinar uma década de imagens dos campos feitas por satélites, a Anistia Internacional observou novas construções dentro deles em 2011 e passou a temer que a população de prisioneiros estivesse aumentando, talvez para conter uma possível inquietação no momento em que o poder começou a ser transferido de Kim Jong-il para seu filho, jovem e inexperiente.

De acordo com o serviço de inteligência da Coreia do Sul e grupos de direitos humanos, existem seis campos. O mais extenso tem 2.000 quilômetros quadrados, uma área maior que a da cidade de Los Angeles. Cercas de arame farpado eletrificadas -pontuadas por torres de vigilância e patrulhadas por homens armados- contornam a maior parte dos campos.

Dois deles, os de número 15 e 18, têm zonas de reeducação, onde alguns detentos afortunados recebem instrução corretiva sobre os ensinamentos de Kim Jong-il e Kim Il-sung. Caso as memorizem o bastante e convençam os guardas de sua lealdade, eles podem ser libertados, mas são monitorados pelo resto de suas vidas por serviços de segurança do Estado.

Os demais campos são "distritos de controle total", onde os prisioneiros, chamados de "irredimíveis", trabalham até a morte.

Coréia do Norte 4 - Controle


 











O campo de Shin, de número 14, é um distrito de controle total. Tem a reputação de ser o mais duro de todos em razão das condições de trabalho particularmente brutais ali vigentes, da vigilância de seus guardas e da visão implacável do Estado sobre a gravidade dos crimes cometidos por seus detentos, muitos dos quais são membros expurgados do partido no poder, do governo e das Forças Armadas, assim como suas famílias.

Fundado em 1959, no centro da Coreia do Norte -perto de Kaechon, na província de Pyongan do Sul-, o Campo 14 abriga cerca de 15 mil prisioneiros. Em uma área com cerca de 50 quilômetros de comprimento por 25 quilômetros de largura, ele abriga fazendas, minas e fábricas distribuídas por vales íngremes.
Embora Shin tenha sido a única pessoa nascida num campo de trabalhos forçados a escapar para contar a história, há pelo menos outras 26 testemunhas oculares no mundo livre. Elas incluem pelo menos 15 norte-coreanos que estiveram presos no distrito de edificação do Campo 15, foram libertados e mais tarde apareceram na Coreia do Sul.

Ex-guardas de outros campos também conseguiram chegar à Coreia do Sul. Kim Yong, um ex-tenente-coronel de Pyongyang, de origem privilegiada, passou seis anos em dois campos antes de fugir num trem usado para o transporte de carvão.

Coréia do Norte 5 – Execuções


 Uma síntese dos testemunhos dessas pessoas, feita pela Associação Coreana dos Advogados em Seul, traça um quadro detalhado da vida cotidiana nos campos: todos os anos, alguns prisioneiros são executados em público. Outros são surrados até a morte ou secretamente assassinados por guardas, que praticamente têm carta branca para maltratá-los e estuprá-los.
Em sua maioria, os detentos trabalham na agricultura, na extração de carvão, na confecção de uniformes militares ou na fabricação de cimento, subsistindo com uma dieta de fome de milho, repolho e sal. Perdem os dentes, as gengivas ficam pretas, os ossos se enfraquecem, e, quando chegam à casa dos 40 anos, ficam arqueados na altura da cintura.
Como recebem um conjunto de roupas uma ou duas vezes por ano, em geral eles trabalham e dormem vestindo trapos imundos, levando a vida sem sabão, nem meias, luvas, roupas de baixo ou papel higiênico.
Jornadas de trabalho de 12 a 15 horas são obrigatórias até que os prisioneiros morram, em geral de doenças relacionadas à desnutrição, antes de completar 50 anos. Embora seja impossível obter números precisos, governos de países ocidentais e grupos de direitos humanos estimam que centenas de milhares de pessoas pereceram nesses campos.

domingo, 11 de março de 2012